"Pela cotia, pelos veados, o macaco prego, o urubu rei!"
Fogo no Cerrado
"Pela cotia, pelos veados, o macaco prego, o urubu rei!"
Relação virtual
e não foi um acaso da vida, a vida esta muito corrida e as pessoas enferrujadas pra se deixarem levar ao acaso.
Da qualidade de ser musa
E logo meus artistas partem pra mulheres de apoios fonéticos mais recorrentes. Daniela de todas a mais bela. Fabiana no meu coração é soberana. Amanda minha vida você comanda. Ou ainda aquela vaca da Cristina, com seu nome tudo rima.
Um Sonho
Imagem: Michael Parkes
O Pão da Carina
Um dia como todos os outros, estava na sua rotina de ir, por volta das 7 e 41 em direção as escadas rolantes, quando notou Ele que se destacava na multidão. Uma visão que surgia em sua direção, tinha um ar sonolento e um leve sorriso no rosto, como se ele não estivesse ali, no meio do transito de pessoas correndo com os seus horários exíguos para suas vidas atarefadas. Ele simplesmente caminhava...
Carina passou a avistá-lo quase que diariamente, ela o via de longe, com o seu andar tranqüilo, os cabelos ainda molhados, denunciando que acabava de sair do banho. Ela imediatamente sorria, e confabulava “ele deve morar há uns 5, 6 minutos daqui”.
E assim ela começou a antecipar a situação, prevendo encontrá-lo, começou a controlar mais minuciosamente seus horários para não perder a oportunidade de vê-lo.
Quando o via chegava no trabalho contando pra todo mundo. Sempre bom ter alguma novidade logo pela manhã, algo sobre o que falar no início do dia que não fosse sobre a novela, o tempo, ou falar mal daquela pessoa de sempre.
Claro que ela logo inventou um apelido pra ele, as mulheres precisam disso, de um nome pra dar ao seu objeto de fantasia, fica mais fácil assim criar suas características, e personalidade imaginária.
Não como os homens que não são nada complexos, pra eles basta dizer. “ Aquela peituda do xérox” que ta tudo resolvido, ou “ a bunduda do 101” e assim por diante.
Não, as mulheres precisam de algo mais, algo que acompanhe toda a dimensão de sua mente cebola com suas camadas de universos a parte.
Então ela começou o chamar de Pão, porque ele vinha assim fresquinho saído do banho, ela quase que via fumacinhas exalando dele.
Carina chegava no trabalho e a primeira coisa que dizia era, “ ai gente vi o Pão hoje!” e as colegas pra estimular, ou provocar diziam “ e ai? E ai?” ela suspirava e respondia, “e ai que ele é lindo”.
Os homens do escritório comentavam entre eles, em meio as litros de café, “ essa ai ta precisando é de uma boa trepada”. Pelo menos ela ganhou um apelido mais inventivo quando era comentada na roda masculina “ a maluca do pão”.
As mulheres já eram mais presentes, umas até incentivam, “ Ai vai lá menina! Fala com ele.” Mas Carina se desesperava. “ Mas vou falar o que? Vem ser o Pão do meu café da manhã?!Quero ser a manteiga do seu pão?!”. Todas riam e a história ficava por isso mesmo.
Mas o pão virou obsessão, Carina passou a acordar mais cedo pra se arrumar pra ele. Logo descobriu que a forma de se vestir tinha que ser do tipo mais tático, como ele a via só por alguns segundos de passagem, ele colocava uma roupa e passava assim de lado correndo no espelho, a que mais marcava no movimento era a escolhida. Por isso começou a usar vermelho, lenços coloridos e saias esvoaçante.
Chegava mais cedo no metro e ficava esperando só pra o ver passar, se atrasava constantemente no trabalho, logo ela que era tão pontual.
“Mas o que esta acontecendo com você Carina? O que tanto viu nesse cara?”. As colegas se preocupavam. “Há! Ele caminha leve e sorrindo... Que homem assim caminha sorrindo?”
Um dia Carina tomou uma atitude. Resolveu não mais o esperar lá em baixo, subiu as escadas e o procurou do lado de fora do metro, um dois três dias e nada. Até que um dia...
Seu ar faltou, sua vista turvou, perdeu o chão o rumo o sentido, não sabia como agir com o que estava vendo.
Seu Pão, seu Pãozinho assim sendo devorado em plena rua, sem requinte na maior displicência na boca de uma qualquer.
E foi assim que Carina aprendeu que homem quando anda sorrindo é homem que está apaixonado.
Crônica de um dia
Não tenho muito assunto, então resolvo pedir alguns exercícios para o tríceps. O professor se empolga e acho q passa todos q ele conhece.
Constatação barata
Noite quente. Remexo-me na cama de um lado ao outro, experimentando a solidão de não topar com ninguém a se queixar de minhas constantes viradas. Movimentos livres e a angustia do meu corpo deserto dividindo dois travesseiros.
Revirando-me em meio a suores provocados apenas pela temperatura ambiente, percebo um movimento á meia luz .
Observo uma temida e nojenta barata caminhando precipitante pelo chão de meu quarto. Com um longo suspiro quase que tento apenas ignorá-la, virando ao lado.
Mas o asco de imaginá-la percorrendo o meu corpo enquanto durmo, me fez pular prontamente. Encarando a barata que juntamente trazia, esfregando em minha cara, a constatação dessa empreitada solitária na noite.
Serzinho marrom, com suas asquerosas asinhas transparentes e anteninhas trepidantes.
Nem aqueles costumeiros gritos de asco e pavor quiseram se fazer presentes, como atores que se frustram com a casa vazia em dia de espetáculo, os sons não se deram ao trabalho de escorrer pela garganta e jorrar pela boca.
A aniquilação da barata foi rápida e silenciosa, como quando se quer evitar um assunto constrangedor, logo inventamos uma historia mais atraente e distraível.
Mas em noites como essa, os sentimentos estão aflorados de mais para assim serem embromados. E logo o corpo, com o seu pijaminha um tanto quanto sexy por causa do calor, volta-se a se por em debate com os dois travesseiros.
Imagem: Francesca Woodman
A dor de fora
Coração Vagabundo
De poema em poema o vagabundo amoleceu, cedeu, aceitou. E um dia pois se a cantar. Eu vivia isolado no mundo quando era vagabundo sem ter um amor. Hoje em dia eu me regenerei...
Operadora de celular
Ela se assusta com a conversa, que surgiu meio que do nada. Observa: Ele esta afoito, aperta nervosamente uma mão contra a outra, mas tem um olhar profundo e feliz. - Ela engole o suspiro - sabe que finalmente ele proporá o grande passo... Ele continua:
- Mas hoje eu sei, tenho certeza do que eu quero. E acredito que você também quer tanto quanto eu. Porque não da mais pra ficar assim se controlando... Pensando realisticamente, estamos gastando muito dinheiro a toa com isso, precisamos tomar uma atitude.
- Sim, sim, sim.
Os olhos da moça brilham, ela quase que salta da cadeira.
Então ele diz em um to afirmador:
- Então esta bem! Vou trocar minha operadora de celular pela mesma que a sua.
Em tempos modernos, em que as coisas acontecem de pressa de mais, e as pessoas estão cada vez mais imediatistas, querendo respostas para suas questões superficialmente profundas.
Juntam-se e se separam com uma velocidade que não consegue ser computada nem pela física quântica. Sempre se acredita que na próxima esquina tem alguém melhor, mais perfeito...
Mas hoje podemos ter um marco pra quando realmente a coisa ficou séria: A troca de operadora de celular. Cada um tem a sua, é tudo a mesma bosta, mas ninguém nunca quer trocar o seu.
Trocar de operadora de celular pode ser considerado a troca de anel de noivado moderno. È um grande passo, as datas de comemoração deveriam ser marcadas a partir desse momento. A decisão de terem a mesma operadora de celular.
Grande passo!
Ninguém quer sair por ai trocando de operadora assim a torta e a direita, até aquelas pessoas que se apaixonam profundamente uma vez por mês não fazem isso. Elas sempre juram que dessa vez é certo, encontrou o amor da vida, faz tudo para aquela pessoa.
Mas trocar de operadora assim?? Não, não!
Se vcs já tem a mesma operadora sorte e azar, porque não passaram pelo o grande marco no relacionamento que é essa decisão. Passar por essa discussão de quem trocará a operadora é importante também.
Uma ótima oportunidade de avaliar a forma com que se relacionam. As vezes o relacionamento pode até acabar nesse momento.
- Então ta. Você troca!
- Como assim? Tem que ser sempre tudo do seu jeito né? Não agüento mais isso!
Ouvindo no avião
Conversas de portão. Ou como comecei (ou não) a compreender a antropologia.
Hoje penso que consigo entender o que quis dizer uma professora quando em uma aula professou uma frase que causou certa indignação entre os alunos. Ela disse algo como, é a antropologia que me permite conversar com o pedreiro, com a empregada...
Entendi que o conversar neste sentido, se estende a um aspecto maior e muito mais intenso do que um comentário sobre o tempo, ou um capitulo da novela. Mas com o sentido antropológico de entendimento do outro, e este “sentido de entendimento” para mim, pressupõe acima de tudo sensibilidade e vontade de olhar as pessoas e suas vidas, de querer olhar sem esta viseira social que encobre e sobrepõem as relações humanas.
Muito mais do que pretender olhar sem julgamentos, e sem a pretensão de tentar compreende-los, mas deixar-se observar e chegar a alguma conclusão que no fim são e somos seres humanos com valores, sentimentos, esperanças, moralidades e realidades.
Esta forma de ver e se ver, é de fato um exercício constante não é simples nem natural, necessita séries de reflexões da vida e seus significados. Que fazem com que você primeiro, aos poucos vai descobrindo ter esta tal viseira a cobrir sua compreensão de vidas, e depois tentar move-la por mais que saiba que tira - lá totalmente ainda é uma tarefa distante. Possível será? Não posso e nem tenho como tentar responder isso a altura de meus 24 anos.
E é nesta reflexão que em mim foi iniciada pela antropologia, ou ao menos, me foi tocada pela forma como está tenta intermediar o relacionamento dos seres, que me deu a oportunidade de nesta vida tão individual e individualizada de prestar a atenção em pessoas além de meus vínculos de interesses.
Como as tantas vezes que, uma mulher, um homem ou uma família vem tocar a campainha de minha casa, me tirar de meu mundo, para me pedir algo, vender algo ou algo assim. Antes do costumeiro não obrigado ou não sinto muito, hoje me vem – mais do que antes - o questionamento e ainda a curiosidade, de quem seria esta pessoa. De onde vem, por quantas casas ela já passou despercebida, quantos nãos ela já recebeu que a fizeram desanimar e desenganar da vida. Ou não. O que a faz ter que tocar companhias desconhecidas e vomitar discursos hoje já decorados, já naturalizados e conformados de uma realidade doída.
E eu com minha vida de estudante sobrevivendo também de uma forma improvisada, mas de uma maneira tão diferente e distante daquela pessoa, tento naqueles minutos de contato entender o que se passa com aquele ser que me aborda, e saber o que eu como outro ser posso fazer naquele instante por ela.
Nesta disposição, me vem toda uma realidade que tento estudar e discutir em meia dúzia de palavras e em alguns segundos de olhar acabo conhecendo:
Uma família que chegou do Paraná só com a roupa do corpo, homem, mulher e 4 crianças, que na verdade tinham saído do nordeste tentando a vida onde lhe coubessem e agora estavam em Marilia a minha porta pedindo qualquer, qualquer coisa para quem não tem nada.
Um tiozinho bêbado e inchado pedindo um pouco de comida pronta por que a família cansou de lhe sustentar.
Crianças que querem somente bolacha e se você dá, elas vêm todo dia pedindo mais.
Uma senhorinha japonesa que vem com seu carrinho vender salsinha, almeirão ou alguma coisa que colheu de sua própria horta que cuida com bastante zelo.
Uma mulher doida que pede um sabonete, um dinheiro e se você lhe da um pouco mais de atenção, ela logo se desinibe e lhe pede uma dose de qualquer coisa.
Um senhor que vende pão e gosta de ficar horas falando como seus clientes adoram o pão que sua mulher faz.
Entre tantas outras pessoas e histórias...
E eu que com minha verba tento administrar contas, aluguel, comida, xerox e cerveja, e com minha dispensa de macarrão, café e batata, tento reparar de uma maneira ínfima e impotente um pouco da desigualdade que tanto estudo e questiono.
Observo-os então ir a porta do vizinho com suas historias pesando lhes o ombro.
Não tenho como não me perguntar:
E aí ?!! por onde a antropologia saí?
(texto antigo, mas q ainda me faz sentido)
Quadro: Andreusa Ricci ( minha avó)
Ano novo
- Meu, tem uma coisa que eu quero te dar já faz um tempo.
E vasculha no meio de sua bolsa até encontrar um passe de metro meio amassado, ela olha para ele, sorri com o seu rosto meio vidrado da madrugada de ano novo e me entrega. Eu olho meio incrédula “será isso?” Estou na praia, meus pés estão cheio de areia e minha cabeça um pouco zonza, vendo sua empolgação ao me dar singular presente a abraço e guardo o passe na minha bolsinha. Olhando para os bêbados que se moviam pelas areias não tive como não pensar sobre o ano que viria. Que pressagio teria aquele presente naquela hora, seria mais um ano de tantos acontecimentos insólitos que não teriam explicações? Então volto os ouvidos pra o som do violão e da cantoria empolgada e desafinada.
Dias depois estou na rodoviária, espero o ônibus que me levará de volta a rotina, tudo esta normal e tranqüilo, só o corpo um pouco cansado, tão diferente dos outros anos em que nem pensaria estar voltando pra casa tão cedo, e na verdade, nunca me lembro das minhas voltas. Espero o ônibus, de pé na plataforma com um livro que peguei emprestado, o livro traz alguns contos de ciganos é sempre alguma historia de como um cigano com sua esperteza soube aproveitar as oportunidades do destino e se dar bem de alguma maneira. Uso a minha passagem para marcar as páginas. Algumas pessoas esperam impacientes os ônibus, outras parecem estar com o pensamento longe talvez projetando sua chegada ao destino. O ônibus chega, eu apenas observo, espero o tumulto inicial se acalmar e entro na pequena fila que resta, sinto alguém roçando em minha mochila não presto muita atenção mas uma hora resolvo virar e vejo uma pequena velhinha, ela esta toda de azul com um pacote de salgadinhos na mão, eu sorrio pra ela de forma cúmplice, eu gosto de velhinhos, ela retribui o sorriso mostrando sua boca desdentada e suas gengivas inflamadas. Entro no ônibus.
O ônibus estava prestes a sair, quando o motorista entra com um objeto cor de rosa nas mãos perguntando quem perdeu. Era a minha carteira. Foi uma velhinha que encontrou - ele disse. Agradeço, achando estranho porque eu usei a carteira apenas pra comprar a passagem, depois não peguei mais nela, e o guichê da rodoviária era do outro lado, não tinha como eu ter perdido ela ali perto do ônibus... abro a carteira não tem mais nada alem dos meus documentos. Puta! A velinha me roubou??
Antes de pensar: Como vou voltar pra casa??! Lembro do inusitado presente na noite do ano novo.
È, esse promete ser mais um ano sem muitas explicações.
-----
(esse fato foi q deu origem ao conto q deu a idéia do blog...)
CORPOS














