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Fogo no Cerrado


Somente  cerca de 10 dias depois do ocorrido que consegui chegar em minha casinha e sentar para escrever, mas durante todo esse tempo fiquei com esse dia na minha cabeça, um dia que foi uma viagem de ensinamentos.

Acordei olhei pro lado o Diego já não estava mais lá, desci pela parede de nosso quarto de pedras e barro com um sensação estranha, "saiu com a Toiota", reparo que o João continua dormindo tranquilamente.

Vou caminhando pelo sitio Karroças na Chapada dos Veadeiros  lembrando de nossa chegada na noite anterior, fogo pelo caminho todo... Logo chega o Diego um tanto quanto desesperado :  "Sá ta queimando tudo Sá, ta chegando".  Meu coração acelera e no mesmo instante começo a ouvir aquele barulho se aproximando, imagine o som de uma fogueira e multiplique muitas vezes esse som, era ele que vinha cada vez  mais próximo com as fuligens que caiam em nossas cabeças.

"Vamos, vamos, logo" eu digo me desesperando. Não há muito a ser feito, não existem bombeiros na região, fazia tempo que queríamos tornar o sitio uma base do Prevfogo, mas nesse momento nem abafadores de pneu tínhamos, eles tinham se quebrado no último incêndio. "Imprudência".

 O fogo não pode chegar no sitio, todas as plantações a agrofloresta, há 5 anos que eles conseguem impedir que o fogo chegue no sitio, coincidentemente esse era o dia de aniversário de 5 anos do sitio Karroças.

O Diego acorda o João, e eu vou me equipar, tênis, calça e chapéu é tudo que tenho, o João ainda tenta começar a fazer uma tapioca, mas não há tempo, o som do fogo parece ensurdecedor nesse momento, encho um galão de água. "Vamos !".



Já da pra ver o fogo, ele ta com força, grande, uma linha chegando, não deixa de ser uma imagem bonita. Não temos nada, paramos e cortamos as folhas de uma palmeira nosso instrumento. Jogo água no meu tênis. "A tatica é essa, não deixar o fogo atravessar a estrada."
" Se atravessar fudeu".

Corremos cada um pra um lado, não da pra saber nem por onde começar, começo a rezar pra tudo que posso. "Vou movimentar o meu fogo, o meu fogo interno, fogo contra fogo é assim que vencerei". Fico repetindo, buscando essa força, essa energia tentando assim me conectar com esse fogo e criar uma compreensão do que ele é.

Começo a bater no fogo, muita fumaça que cegava, intoxicava, um calor quase insuportável, deviam ser quase 9 da manhã e o calor do fogo se misturava com o calor do cerrado, muito mais difícil apagar o fogo de dia. Parece que nada que eu faço adianta, queria ajuda, mas não tinha ninguém, só o Carcará que rondava a minha cabeça se aproveitando da situação a espera de alguma presa fugindo do fogo.

E o fogo ia consumindo tudo, matando tudo, os matos, as flores coloridas do cerrado, as casas dos animais, queimando as árvores, revelando as tocas, os ninhos, as cobras...   

Me surpreendi ao  conseguir apagar um pedaço que estava quase pulando a estrada, mas não tem muito tempo para comemorar tem muito fogo pra todo lado.
A garganta ta seca, os olhos lacrimejam choro e ardor, me sinto zonza, lembro que não tinha nem tomado café. "Mas a janta de ontem foi boa, bem reforçada" não há tempo pra lamentações, só o descer e o levantar dos braços em ritmo frenético, mais rápido que o fogo, que a brasa.
Tinha passado 15 dias remando antes disso, parecia que tudo tinha sido um treino, um preparo para estar naquele momento.

"Pelas cobras, pelos lagartos, as curicacas, o tamanduá bandeira !!"

Quando eu sentia que estava conseguindo controlar alguma coisa o vento mudava de direção e o fogo vinha pra cima de mim. "Meu Deus, Mãe Divina, Ganesha, Shiva". Vou evocando todo mundo e começo a pensar por que os Deuses que adoro são todos Indianos, tento pensar em algum Deus Brasileiro, mas logo percebo que nada disso existe, Deus é tão universal quanto esse fogo.

Meu estomago começa a doer, arder, sinto estar queimando por dentro. Movimentei tanto o fogo dentro de mim que agora esse fogo também me consumia. " Evocar a sutiliza do fogo é algo muito mais complexo do que ascender o fósforo". Penso sobre esse aspecto destruidor e transformador do fogo. "Parece que nada sei sobre a minha força".

 O João vem em minha direção as folhas dele tinham queimado, percebo que essa é uma hora boa para  lidar com o meu fogo, dou a minha pra ele e vou caminhando pra buscar mais, aproveitando pra respirar, pra equilibrar, ar e água "Não é o fogo contra fogo, é encontrar a sutileza desse equilíbrio".

Volto  com um novo animo, o Diego informa que o João tinha sido picado por uma abelha e ele é alérgico. Não há tempo de ver como ele esta, somos dois agora.

E por aqueles lugares que eu sempre andei com tanta cautela e até um certo receio, agora eu corria, pisando no meio do mato e escorregando nos barrancos, nada disso parecia importar. "Pela jaguatirica, pelas araras, tatu, anta, o lobo ahhh pelo lobo!!"

Penso que devem ser quase 11 horas, horário que ia ter o encontro das mulheres guerreiras na aldeia multiétnica, que eu queria tanto participar. Me conecto com a força dessas mulheres e nem sinto mais os meu braços, e o ardor. O fogo meche com a gente de uma forma é um transe, nada mais me incomodava, nada mais eu pensava.

O João voltou, tomou o remédio.  Conseguimos isolar bem o fogo, não tem mais tanto risco de pular pro outro lado, a meta agora era outra, proteger a grotinha, uma vereda cheia de buritis
Lembro do seu Jão falando "aquela grotinha que nunca seca, esta seca já em julho". A seca esta brava. As plantas são fixadoras de água mas são tantas as queimadas ... E o cerrado é onde se localiza a maioria das bacias hidrográficas do país.

"Mãe, minha Mãe Divina, por favor não deixa  o fogo chegar na nascente em cima do morro, a nascente onde cresce aqueles juçaras que sempre namoramos esperando seu fruto roxo, ali onde observamos o casal de araras fazendo ninho no tronco do buriti seco."

 Ahh quero chorar de raiva! "Filha da Puta" grita o Diego e logo ele completa "Não o fogo, o fogo é amigo".  "Filha da puta o Lorival que bota fogo todo ano pro seu gado", "Não, nem ele eu posso xingar". "As pessoas que comem carne também financiam tudo isso."  As pessoas mais pobres tem gado mas não tem terras pro gado, então eles criam o gado solto e colocam fogo pra todo lado pra tudo virar pasto.
Parece metáfora barata, mas ficava muito claro que com o ódio o fogo aumentava.
 "Pela cotia, pelos veados, o macaco prego, o urubu rei!"

Controlamos aquele lado, ufa uma vitória, um respirar aliviado.  Entramos no carro, a Toiota que nos levava para passear cachoeiras e morros agora era nosso caminhão de combate.

Chegamos em uma parte montanhosa cheia de pedras, muito mais difícil andar lá e se equilibrar, mas é onde o fogo e esta mais fraco e temos que  aproveitar. Sinto a sola do meu tênis mole mas continuo... "abuelitas  indestrutíveis ".

Meu corpo já esta  bem fraco, aquela adrenalina inicial já não estava fazendo tanto efeito. Não dormi direito na noite anterior, tinha visto um rato e fiquei a noite inteira com medo que ele subisse em minha cama. Nesse momento, entre o fogo e as pedras, compreendi muito internamente em como sou tola com meus ínfimos traumas, senti vontade de rir como se me observasse de longe. Relembro por quantos fogos eu já passei e me sinto plena ao perceber que ele passa.

Já passavam das 14 horas. O fogo, pelo menos, naqueles lados estava controlado, olhávamos aquele rastro de destruição a mata, as plantas, as copaíbas,  jatobás, lobeiras e os cajuís que estavam floridos, e aguardávamos dia a dia o seus cajus, tudo queimado.

Mas sabíamos também que o cerrado tem uma capacidade regenerativa incrível. Abracei uma árvore que estava toda queimada com a expectativa de me conectar com ela, e ela me repetiu o que uma outra árvore próxima dali já havia me dito:

 " A crueldade, o sofrimento é tudo coisa do ser humano, na natureza não existe isso".




Sati Sukalpa

Relação virtual






Encontraram-se
e não foi um acaso da vida, a vida esta muito corrida e as pessoas enferrujadas pra se deixarem levar ao acaso.
Encontraram-se porque procuravam. E como procuravam...
Perdidos em horas navegadas, os olhos agitados de páginas à páginas,
navegantes, um tanto quanto entusiastas dos meios.
Sentiam em pele, a dor do frio virtual que secava a quem dia a dia se faz sensível.

Tanto assim que se deixaram
tanto assim que as letras mal digitadas da velocidade da conversa, subiam e subiam
Horas a fio...

O pulso doía, a luz lá fora caminhava  ofuscada pela intermitência da luz quadrada, não percebiam, não sentiam o movimento da vida que vai,
o gato espreguiça, passeia pela ração
a perua buzina lá fora trazendo crianças sujas e famintas,
o elevador que sobe, desce...
As letras, as letras, os sorrisos e risadas das conversas dedilhadas,
Risadas dedilhadas .

Então se encontraram
no mesmo instante se amaram, precisavam se amar, pois enfim se encontraram.

Conversaram  como que velhos conhecidos, mas sem saber ser confortáveis e espontâneos quando na intimidade de seus teclados...
O papo se perdia, quase não tinham como se apresentar, já estava tudo dito em suas páginas em face, e seus dias expressos em carácteres, acompanhados e comentados.

Tudo resumido, assim dito por dito, restava o toque...
E se permitiram rapidamente a ele. Talvez por puro medo, de que aquele silêncio expresso no contato dimensional, os afastasse definitivamente da felicidade de olhar a janelinha subindo com o dizer, “acabou de entrar”.

O toque de corpo foi um misto de surpresa e revelação na constatação do auto-engano.
Realmente não se conheciam, definitivamente dois estranhos estavam ali.
Mas valia, valia tudo o que sentiam quando visitavam os blogs afoitos por novidades deixadas em formas poesias.

Duas @@ juntas agora, comentariam em seus caracteres, @namora@, receberiam RTs de felicitações, dos amigos em comum de todo o canto do país, cidades e cidades do mundo, duas @, quem sabe um dia @binhas viriam...

Nos outros dias cada um em seu trabalho, prosearam pelas links virtuais o decorrer do dia, Facebook, bate papo do Gmail, msn, Skipe... os dois estavam em todas as contas um do outro.

Chegavam em casa e antes de qualquer coisa, de ascender a luz, acariciar o cachorro, lavar as mãos... Iam direto ligando o computador... E vai quase um minuto de interminável espera até a conexão em fim.

“ poxa, estamos conversando aqui, mas podíamos ter nos encontrado hoje né?”
“ Ah, mas acordo cedo amanhã”
Dois pontos abre parentes.
“ Mas já são quase uma e você ta aqui...”
Erre esse erre esse.




 Não tinham percebido até então que a relação poderia ir por caminhos mais livres, sem o intermédio de uma face brilhante.

Um dia ele tinha uma reunião o dia todo. Avisou no TT via celular. Ela estava então uma tarde toda sozinha... Começou a vasculhar sua vida, os 4573 recados no Orkut, o mural do facebook foi até onde podia, começou a ler os quase 6,000 twettes, e até as 289 respostas no famigerado formspring.

Ela sentia que podia fazer isso, nada dele sabia, e ademais esta tudo lá, o pessoal no público. Ela era o seu público agora.
Ela tentava traçar linhas de conexões, recados mais ousados como, “saudades”  procurava até onde podia pra saber mais de onde vinha.
“Saco, hoje em dia todo mundo bloqueia tudo...”

Uma rotina mais palpável começou a se fazer, telefonemas tornaram-se mais significativos que letras que subiam.
Entravam invisível no msn a fim de não perderem tempo com os papos insignicativos de agora sentidos falsos conhecidos.
As pessoas comentavam publicamente, cadê @ tal que sumiu.

Foram assim, por puro excesso de rotina de sua união, afastando-se do que um dia foi mais real. dedicando-se agora à um mundo onde se sente os passos do pé no chão.

Claro que ele ainda falava com @anamineira, e ela mantinha contatos com @papopoeta, mas menos, bem menos...

Da qualidade de ser musa



Lembro quando conheci a palavra “musa”, foi em um romance que lia quando tinha 11 anos. O personagem era um desenhista e dizia algo como, “nunca mais terei em tela os seios de minha musa.”
Como sempre recorri ao dicionário, “ Mamãe, mamãe o que qui é musa?”
Ela explicou que era uma mulher muito bela e amada, que inspira o artista criar obras sobre ela.
Pensei: “legal, quero ser musa”.
Mais ou menos igual quando eu tinha uns 7 anos, e perguntei pra minha mãe quem era o Pinochet. Ela querendo suavizar um ditador disse-me, “é um cara que obriga a todas as pessoas fazerem o que ele quer ”.
Então eu disse: “Legal! Quando crescer quero ser isso também.”
Minha mãe deveria ter enfiado o meu dedo na tomada, para eu ter noção do que é tortura, porque desde então eu cresci super mandona.   

Mas fiquei com essa coisa de musa na cabeça. A princípio não fui muito sutil, dado essa minha influência infantil Pinocheniana.

Tinha um colega na escola que passava os dias desenhando personagens de quadrinhos. Eu perguntei: “Você nunca desenha heroínas mulheres?. Dias depois ele trouxe um desenho, acho que da Vampira do X Man.  Ai eu falei : “ Ah, faz um desenho de mim como heroína?” E ele veio com outro desenho da Vampira, só que mais baixinha.

Não desanimei.
Um dia comecei a namorar um músico. De presente de aniversário pedi que ele me compusesse uma música. Ele fez uma música tão abstrata, e a meu ver até atonal, que ele nunca mais conseguiu toca-la de novo.

Enfim logo conheci os poetas, com estes era tudo mais fácil. Embebidos da segunda geração romântica, estão sempre sedentos por uma musa pra lhes dar alguma dor. E quanto mais você desdenhava mais poemas recebia.

Não que estes não dessem trabalho também. Você tem de ter muita autoconfiança pra acreditar que aquele poema do seu namorado, sobre uma noite inesquecível com uma mulher fabulosa, de olhos tão profundos que beiravam o lilás, era sobre você mesma.
Pior ainda, são aqueles que têm mania de misturar os relacionamentos em um poema só,
e você tem que ficar decifrando se é a lírica, a plácida ou a louca.

O ruim de ser musa é que sua vida fica meio exposta. Vai ser musa de um cara que escreve contos autorais, que fica cavando coisas mais escatológicas e bizarras pra divulgar por ai. Como a vez que foram viajar para um fim de semana romântico, e comeram camarões estragados de resseca de vinho barato. Que deu uma disenteria tão fudida que em quanto um cagava na privada, outro tinha que cagar no chão.

Outra coisa que é foda é ser musa desses caras que não tem capacidade artística, mas que são tão locos e bitolados que escrevem sobre você até em porta de banheiros públicos.

Também nunca fui uma musa muito fácil. Sou impar pra rimar, cinza em azáfama, áscua em álveo.
E logo meus artistas partem pra mulheres de apoios fonéticos mais recorrentes. Daniela de todas a mais bela. Fabiana no meu coração é soberana. Amanda minha vida você comanda. Ou  ainda aquela vaca da Cristina, com seu nome tudo rima.

Mas o pior mesmo é ser a musa de você mesma, que fica escrevendo coisas assim por não ter mais sobre o que falar.




Imagem: Velásquez " Vénus no espelho"
Picasso "Mulher ao espelho"




Um Sonho



Caminhava sobre muros da cidade, ela notou e passou a me seguir. Percebi sua intenção de relance, e  pulei faceira sobre telhados.
Ela brincou comigo, com longos e pesados cabelos negros envolvendo uma face misteriosa. Sua pele brilhava sobre o céu que hora se tornava claro, hora se tornava escuro.
Dançávamos e girávamos, um dos giros tornou-me à seguidora.
Em um majestoso salto se jogou para o fundo de uma enorme piscina em um azul bucólico.
Pulei atrás, experimentando a sensação da água em meu corpo.
Na parábola do mergulho, as solas de dois pés colidiram com força sobre o meu peito.
Perdendo tudo em mim pensei, “não sobreviverei a isso”.
Deitaram-me a borda da piscina, e o primeiro ar que consegui trazer foi só pra gritar,
“ Porque fez isso?”. Seu rosto sem face respondeu, “ Você também já fez isso”.
Cai em torpor sentindo os pelos ouriçando no frio de minha pele molhada.
Os pulmões exprimidos sob os ossos das costelas lutavam para estabelecer respiração, o coração esmagado compassava em dissonância 
“Não sobreviverei a isso!”
Exclamei com o que eu achei ser meu ultimo tormento.
Então meu pai debruçou-se sobre a minha face, com seus olhos verdes e sorriso debochado, me informou:
“Você só esta apaixonada.”




Imagem: Michael Parkes

O Pão da Carina

Carina tinha a vida assim milimetricamente cronometrada, colocava o despertador para as 6 e 3 da manhã, levantava depois dos dez minutos da tecla soneca. 7 e 15 saia de casa e caminhava cerca de 13 minutos até o metro Conceição, e guardado os atrasos, demorava mais cerca de 13 minutos até a estação Ana Rosa, onde pegava um ônibus até o escritório que trabalhava no Itaim.

Um dia como todos os outros, estava na sua rotina de ir, por volta das 7 e 41 em direção as escadas rolantes, quando notou Ele que se destacava na multidão. Uma visão que surgia em sua direção, tinha um ar sonolento e um leve sorriso no rosto, como se ele não estivesse ali, no meio do transito de pessoas correndo com os seus horários exíguos para suas vidas atarefadas. Ele simplesmente caminhava...

Carina passou a avistá-lo quase que diariamente, ela o via de longe, com o seu andar tranqüilo, os cabelos ainda molhados, denunciando que acabava de sair do banho. Ela imediatamente sorria, e confabulava “ele deve morar há uns 5, 6 minutos daqui”.

E assim ela começou a antecipar a situação, prevendo encontrá-lo, começou a controlar mais minuciosamente seus horários para não perder a oportunidade de vê-lo.
Quando o via chegava no trabalho contando pra todo mundo. Sempre bom ter alguma novidade logo pela manhã, algo sobre o que falar no início do dia que não fosse sobre a novela, o tempo, ou falar mal daquela pessoa de sempre.

Claro que ela logo inventou um apelido pra ele, as mulheres precisam disso, de um nome pra dar ao seu objeto de fantasia, fica mais fácil assim criar suas características, e personalidade imaginária.
Não como os homens que não são nada complexos, pra eles basta dizer. “ Aquela peituda do xérox” que ta tudo resolvido, ou “ a bunduda do 101” e assim por diante.
Não, as mulheres precisam de algo mais, algo que acompanhe toda a dimensão de sua mente cebola com suas camadas de universos a parte.

Então ela começou o chamar de Pão, porque ele vinha assim fresquinho saído do banho, ela quase que via fumacinhas exalando dele.

Carina chegava no trabalho e a primeira coisa que dizia era, “ ai gente vi o Pão hoje!” e as colegas pra estimular, ou provocar diziam “ e ai? E ai?” ela suspirava e respondia, “e ai que ele é lindo”.
Os homens do escritório comentavam entre eles, em meio as litros de café, “ essa ai ta precisando é de uma boa trepada”. Pelo menos ela ganhou um apelido mais inventivo quando era comentada na roda masculina “ a maluca do pão”.
As mulheres já eram mais presentes, umas até incentivam, “ Ai vai lá menina! Fala com ele.” Mas Carina se desesperava. “ Mas vou falar o que? Vem ser o Pão do meu café da manhã?!Quero ser a manteiga do seu pão?!”. Todas riam e a história ficava por isso mesmo.



Mas o pão virou obsessão, Carina passou a acordar mais cedo pra se arrumar pra ele. Logo descobriu que a forma de se vestir tinha que ser do tipo mais tático, como ele a via só por alguns segundos de passagem, ele colocava uma roupa e passava assim de lado correndo no espelho, a que mais marcava no movimento era a escolhida. Por isso começou a usar vermelho, lenços coloridos e saias esvoaçante.

Chegava mais cedo no metro e ficava esperando só pra o ver passar, se atrasava constantemente no trabalho, logo ela que era tão pontual.
“Mas o que esta acontecendo com você Carina? O que tanto viu nesse cara?”. As colegas se preocupavam. “Há! Ele caminha leve e sorrindo... Que homem assim caminha sorrindo?”

Um dia Carina tomou uma atitude. Resolveu não mais o esperar lá em baixo, subiu as escadas e o procurou do lado de fora do metro, um dois três dias e nada. Até que um dia...
Seu ar faltou, sua vista turvou, perdeu o chão o rumo o sentido, não sabia como agir com o que estava vendo.
Seu Pão, seu Pãozinho assim sendo devorado em plena rua, sem requinte na maior displicência na boca de uma qualquer.
E foi assim que Carina aprendeu que homem quando anda sorrindo é homem que está apaixonado.

Crônica de um dia



( ficou um pouco longo, mas como faz tempo q não posto... e há! É pra ler assim meio correndo, meio sem virgulas, meio agitado, meio sem se aprofundar, assim São Paulo ...)

Gosta de crônicas? - Ele pergunta.

Acordei cedo, leve friozinho num dia que se sabe será de muito calor.
Fiz uma aula de yoga, saí 5 minutos mais cedo, corri pro metrô, o trem atrasou.
Atrasou atrasou...
Pessoas acumulando na plataforma.
Nenhuma voz explica nda.
Minutos passam, pessoas se entreolham, algumas bufam.
Plataforma lotada mas td mundo direitinho atrás do adesivo azul.
Uma esperta chega do meu lado - Estou na frente.
- Quebrou é?
- Num sei.  - Respondo meio aérea.
Chega finalmente. A mulher é tão esperta q ainda conseguiu entrar antes de mim. Sou empurrada pra dentro do vagão. Me fez lembrar um mantra.
“ A onda do mar, esta em mim o mar... Eu sou  a onda, está em mim o mar...”
O mantra me acalmou durante o trajeto esmagada. Descida, quebro na areia,  caminho correndo pra compensar aquele descanso na plataforma.

Chego, num da nem tempo pra uma água. Estão lá as alunas, academia só para mulheres. O único homem é o dono.Esperto.
Aula corre tranqüila. Ao final, uma vem dizer q passou a semana toda sentindo o músculo do abdômen.
Como toda boa professora de yoga, faço uma cara serena serena e digo:
- Hum... pode ser q você tenha ido além de seu limite, é preciso respeitar o corpo.
Outra aluna ajuda: Mas é uma dor boa, de músculo trabalhando.
Pego meus CDs desligo o ar e corro pra próxima aula.
Ônibus até a Brigadeiro, como uma barrinha de cereal, pego outro bus até o Itain.

Aulas dadas. Casa, preparo almoço, brinco com as gatas, tiro um cochilo de 30 minutinhos, checada básica no horóscopo do dia:
“ Hoje você esta com um poder de magnetismo pessoal inexplicavelmente forte”
Banho e Psicólogo.

Você é muito mental – Ela diz.
Penso com os meus botões: 
Mas meu coração tem que bater.
 - Você segura tudo muito com a cabeça. – Ela insiste.
Pensamentos insistem:
A cabeça agüenta, o coração sufoca.
Cabeça transforma em poemas, coração paralisa.
Tenho medo que ela me cure e eu nunca mais escreva poesia.

Sai do consultório, o céu esta cinza cinza, mas saco da bolsa um imenso óculos escuros que escondem os vermelhos da minha consulta.
Desço a rua cheia de bares na Vila Madalena,
é terça feira, mas é duble drink , o bar  já esboça alguns solitários que observam o meu caminhar...
O mundo desaba enquanto estou no ônibus. Meu ponto chega e ele continua desabando, sem ter o q fazer me entrego as águas, tenho um guarda-chuva, mas sinto q a única coisa q ele protege é o meu couro cabeludo.

Metro, Brigadeiro ainda chove, encaro. Sesc.
Décimo quarto andar... penso em tomar alguma coisa quente...
Dou uma passada no banheiro, e tento secar as pernas e pés (ainda bem q estava de vestidinho e sandálias...) esqueço de olhar no espelho.

Décimo quarto andar... até quando vou entrar e olhar pra esquerda?
Sei q você nunca mais esta lá! Até quando vou chegar no décimo quarto andar e ainda olhar pra esquerda no décimo quarto andar?

Observo alguns rostos conhecidos, típicos daquelas pessoas que freqüentam os mesmos circuitos centrais culturais baratos.

Caminho em direção ao bar. Quero uma coisa quente, outra que sustente e algo doce... Só isso passa em minha mente.
Um dos rostos conhecidos me olha. Esboço um cumprimento meio tímido. Na lata ele devolve:
- Você parece uma leoa. Uma leoa cansada.
Só consigo pensar, diante de inusitado comentário, que devia estar realmente descabelada.

- Gosta de crônicas?  - Ele pergunta.
- Se forem boas... - Respondo com displicência .
Eis que então ele me oferece um livro de crônicas de sua composição. E depois parte com o seu amigo também escritor.

Fico eu, meu caputino e o livro, que se demonstra muito interessante. crônicas do dia a dia desse personagem que freqüenta os mesmos lugares que eu. Feiras, centro cultural Vergueiro e até a mesma casa na rua João Moura.
Chego a me assustar achando que poderia me encontrar em alguma esquina de suas linhas.  
Como não sofri a insídia esperada  resolvi, de embalo, fazer uma minha.

Perdida no cotidiano familiar das crônicas desse desconhecido, agora já muito conhecido....
Um rapaz, de bela aparência e desenvolta constituição física, se intromete em meus pensares perguntando sobre o que eu estava lendo. 
Ai! Esse magnetismo inexplicavelmente forte do dia...

Entabulamos uma conversa que não me empolga muito.
Ele acha q estou interessada, porque mecho nos meus cabelos. E eu mecho nos meus cabelos porque ainda estou com “leoa cansada” na cabeça.
Distraidamente, enquanto conversamos, desenho em um papel setas para baixo, e só percebo isso quando ele pergunta:
- Quando q você desenhara setas pra cima?
Penso, um pouco que deprimida, infelizmente acho q no meio dessa conversa, não subirão setas...

Então, em seu not, ele me mostra um trecho de um filme do Pequeno Príncipe.
- Nem sabia que tinha filme...
A cena é a clássica da Raposa que quer ser conquistada pelo menino.  
Desde que eu li um texto da Fernanda Young sobre esse momento do livro, só consigo pensar q essa Raposa é mesmo muito carente.
Não tenho animo pra elaborar nenhum comentário inteligente depois da cena, o q desanima um bocado o rapaz raposa que queria ser conquistado.
E então ele parte.
Resolvo partir também aproveitando o período entre - chuvas.

Caminho pela Paulista em direção a 13, umas gotas caem do céu, mas tenho preguiça de segurar o guarda-chuva, sinto me cansada, mas animada ao mesmo tempo. O ar da noite sempre me inspira.



Chego no chique condomínio em q dou aula. Passo o primeiro portão, tenho q assinar o meu nome em papel com um segurança porteiro.
- Libera o s2. - Ele fala com alguém em seu radinho.
 Passo o segundo portão, fico presa por uns instantes.
- Libera o s3 - Repete.

Adentro então na fortaleza condomínio, tem uma bela área de lazer bem arborizada cheia de bancos, nunca vi ninguém por lá, nunca vi crianças brincando no parquinho e nem na quadra.

Troco de roupa. Esta cedo, voltou a chover.
Resolvo passar na academia, e vou direto pra área da musculação, reduto masculino.
Não tenho muito assunto, então resolvo pedir alguns exercícios para o tríceps. O professor se empolga e acho q passa todos q ele conhece.
Fico por lá dividindo os aparelhos com os outros caras, q se revelam tão fofoqueiros qt as mulheres.
Falo sobre o meu músculo abdominal chamado panceps e arranco boas risadas.
Ai! Esse magnetismo inexplicavelmente forte do dia...
E então eles começam a falar  do cara que engordou, do outro q não limpa os equipamentos, do moleque que não agüenta o peso...
Falam de tudo, só não falam daquela menina deitada no aparelho pros glúteos, com um tope decotado mostrando um belo e curvilíneo colo, o que faz com que por alguns instantes eles se lembrem porque passam dias e dias dentro de uma academia cheia de homens e um tanto qt fedida. Mas é porque eu ainda não estou naturalizada em seu meio.
Faço os exercícios e me despeço para a minha aula.
- Quero ver esse tríceps rasgando ein?! – diz o professor
Agora já tenho assunto com eles.

Chego na minha sala, não veio aluno nenhum. Meu chefe aparece e me pega de papo com a professora de pilates.
- Estou preocupado – ele diz. – O que falta pra sua aula encher?
Tenho total confiança na qualidade do meu trabalho, e conhecimento na qualidade de meus alunos, então faço aquela cara serena serena e respondo sem pestanejar:

- Falta só, depois de um dia intenso de trabalho, temporal, trânsitos e alagamentos em mais da metade da cidade, o aluno querer sair de seu apartamento de baixo de chuva e vir aprender a respirar.



Imagem: 1,2 D. Xavier 3 Sati K.

Constatação barata

Insônia.
Noite quente. Remexo-me na cama de um lado ao outro, experimentando a solidão de não topar com ninguém a se queixar de minhas constantes viradas. Movimentos livres e a angustia do meu corpo deserto dividindo dois travesseiros.
Revirando-me em meio a suores provocados apenas pela temperatura ambiente, percebo um movimento á meia luz .
Observo uma temida e nojenta barata caminhando precipitante pelo chão de meu quarto. Com um longo suspiro quase que tento apenas ignorá-la, virando ao lado.
Mas o asco de imaginá-la percorrendo o meu corpo enquanto durmo, me fez pular prontamente. Encarando a barata que juntamente trazia, esfregando em minha cara, a constatação dessa empreitada solitária na noite.
Serzinho marrom, com suas asquerosas asinhas transparentes e anteninhas trepidantes.
Nem aqueles costumeiros gritos de asco e pavor quiseram se fazer presentes, como atores que se frustram com a casa vazia em dia de espetáculo, os sons não se deram ao trabalho de escorrer pela garganta e jorrar pela boca.
A aniquilação da barata foi rápida e silenciosa, como quando se quer evitar um assunto constrangedor, logo inventamos uma historia mais atraente e distraível.
Mas em noites como essa, os sentimentos estão aflorados de mais para assim serem embromados. E logo o corpo, com o seu pijaminha um tanto quanto sexy por causa do calor, volta-se a se por em debate com os dois travesseiros.

Imagem: Francesca Woodman

A dor de fora




Porque descontar a dor do sentir, procurando um alguém para substituir? 
Porque esperar um, para completar esse buraco arrancado, usando de outro o que se espera encontrar em você?

Agora já me sinto bem, encontrei outra pessoa. e quero que você saiba. Quero que me veja feliz passeando de mãos dadas na calçada!

Os lençóis já estão viciados. Mas como a noite virar e chorar, se um alguém esta a dividir seu travesseiro?

Como contar que te usei...
Te usei, obrigada adeus passe bem...

Procura alguém por um motivo, usa até quando pode, e quando esta não esta mais dando conta do que lhe era querido para o uso, chuta.

Procuro alguma desculpa para te chamar, um livro esquecido uma conta por pagar...

Sem perceber mais um por ai a se lamentar. Vamos rir engolir o choro e buscar o novo amor.
Assim criar a ilusão de que, eles vêm eles vão, e não me afeta sua falta de afeição.

Me sufoca o ódio que sinto por essa pessoa que me despreza.
Não entendo como se pode inverter assim o sentimento. Quero te afetar inventar algo para que sinta pior pior!!

Nem sei se esse amor ou essa dor tem um rosto ainda, alimentando uma lembrança que de feliz se tornou angustia.

Um som antigo vem como uma sentença “de cada amor tu herdaras só o cinismo”.

Não vejo sentido de você no mundo em que tento construir, não cabe te ver diferente de como te vivi, sorrindo em minha cama... não quero mais nem você nem esse quadro.

Caminho sem persistência da minha personalidade, não sei mais o que sou e isso já não importa...

Esse amor tem essa dor esse rancor. Esse amor tem essa cor, esse sabor em tom de melancolia.
Tão egoísta ao mesmo tempo em que não se supre por si só.
Qual será afinal o companheiro do amor?

Hoje me sinto tão racional e distante, parece que por um instante...

Ninguém é esta metade que parece me faltar.
O que me falta eu encontro só em mim.

foto: Francesca Woodman

Coração Vagabundo


Estávamos em um bar escuro, copos abandonados na mesa denunciando os amigos que vieram e foram, e um garçom preguiçoso.
Entre perversões e lamentações este, que sentado ao meu lado, me olha de frente com um sorriso malandro ­e professa:

- Você tem o coração mais vagabundo que eu já pude conhecer um dia em toda a minha vida!

A princípio me senti ofendida, por afirmação tão determinante de um ser que, no melhor estilo Henri Miller passeia de puteiros a festas de elites, sempre com o seu ar observador e seu corpo devorador.
Mas como eu já tinha idade suficiente pra entender sobre isso, me deixei analisar e assim assumi. Meu coração vagabundo  quer guardar o mundo em mim.



Esse coração vagabundo que passeia pelas esquinas, suspira nas noitadas e de pernadas em pernadas se deixa bater por ai. Sem medo de se sujar vagueia, vadio parando onde lhe dão atenção.

Um dia trombou com o Coração sem Pudor, fácil de mais, e com ele aprendeu palavras sórdidas. Serviu de pasto em sua mesa derretendo de vez o que restava de sua inocência.

Escorregando insolente pelos meios fios, bateu na porta do Coração Proibido que o envolveu em seus braços serenos.  Mas logo se cansou do que não é mais novidade. E por ai continuou batendo toda sua boêmia.

Até que um dia por puro desaviso, deu de bater junto com o Coração Leviano. Ele usando de todos os seus sambas mostrou que Pra se ganhar no amor, Há que penar no amor... Há que apanhar. E sangrar. E suar Como um trabalhador.
O vagabundo tinha preguiça, mas o leviano tinha malicia.
Oh! Minha romântica senhora, tentação. Não deixes que eu venha sucumbir nesse vendaval de paixão. Jamais pensei em minha vida Sentir tamanha emoção.

Assim foi o leviano ensinava pro vagabundo, que então só suspirava. Ame Seja como for. Sem medo de sofrer.
De poema em poema o vagabundo amoleceu, cedeu, aceitou. E um dia pois se a cantar. Eu vivia isolado no mundo quando era vagabundo sem ter um amor. Hoje em dia eu me regenerei...
Amor é assim, faz tudo mudar É só alegria, tristeza não tem lugar.


Mas pobre do vagabundo se engraçar com o leviano que se usava de poesias que não eram suas, e na sua inconstância partiu sem dizer adeus.
Ah coração teu engano foi esperar por um bem De um coração leviano que nunca será de ninguém.
     O coração vagabundo se perdeu, Ah coração leviano não sabe o que fez do meu.
Seu pulsar só batia lamentos  O amor, eu bem sei. Já provei. E é um veneno medonho. Rastejava em sofrimento Teu amor de sentimento, Quantos tormentos eu passei.

Mas enfim o tempo o acolheu,  Saiu por ai a procurar sorrir pra não chorar.  E um dia voltou a perambular assoviando tristeza tudo tem o seu tempo e o seu já terminou.  Deixou-se errar novamente Bate outra vez com esperanças o meu coração pois já vai terminando o verão. 



Mas passou a andar  com canivete no bolso, e chegou a furar  sem dó, dois ou três corações desprevenidos  Evite Meu Amor .Recuse os braços meus.

Mas vagabundo é  vagabundo e até o canivete voltou a esquecer. De choro em samba passeou por ai dançando pulsando. Alvorada lá no morro, que beleza. Ninguém chora, não há tristeza.Ninguém sente dissabor.
Deixou-se embalar por outros ritmos, desencanou das esquinas. E hoje já bate faceiro pra quem se dispor a alimentá-lo.
Dádiva de amor nunca se avisa. Simplesmente dá de mão beijada. Chega de repente, vem do nada. E tudo se transforma em alegria.


Caetano, Chico, Cartola, Paulinho. 
 



Operadora de celular

- Olha meu bem, tem uma coisa que já quero falar há um tempo... Venho enrolando, pensando muito sobre o assunto...
Ela se assusta com a conversa, que surgiu meio que do nada. Observa: Ele esta afoito, aperta nervosamente uma mão contra a outra, mas tem um olhar profundo e feliz. - Ela engole o suspiro - sabe que finalmente ele proporá o grande passo... Ele continua:

- Mas hoje eu sei, tenho certeza do que eu quero. E acredito que você também quer tanto quanto eu. Porque não da mais pra ficar assim se controlando... Pensando realisticamente, estamos gastando muito dinheiro a toa com isso, precisamos tomar uma atitude.
- Sim, sim, sim.
Os olhos da moça brilham, ela quase que salta da cadeira.
Então ele diz em um to afirmador:
- Então esta bem! Vou trocar minha operadora de celular pela  mesma que a sua.





Em tempos modernos, em que as coisas acontecem de pressa de mais, e as pessoas estão cada vez mais imediatistas, querendo respostas para suas questões superficialmente profundas.
Juntam-se e se separam com uma velocidade que não consegue ser computada nem pela física quântica. Sempre se acredita que na próxima esquina tem alguém melhor, mais perfeito...

Mas hoje podemos ter um marco pra quando realmente a coisa ficou séria: A troca de operadora de celular. Cada um tem a sua, é tudo a mesma bosta, mas ninguém nunca quer trocar o seu.
Trocar de operadora de celular pode ser considerado a troca de anel de noivado moderno. È um grande passo, as datas de comemoração deveriam ser marcadas a partir desse momento. A decisão de terem a mesma operadora de celular.
Grande passo!

Ninguém quer sair por ai trocando de operadora assim a torta e a direita, até aquelas pessoas que se apaixonam profundamente uma vez por mês não fazem isso. Elas sempre juram que dessa vez é certo, encontrou o amor da vida, faz tudo para aquela pessoa.
Mas trocar de operadora assim?? Não, não!

Se vcs já tem a mesma operadora sorte e azar, porque não passaram pelo o grande marco no relacionamento que é essa decisão. Passar por essa discussão de quem trocará a operadora é importante também.
Uma ótima oportunidade de avaliar a forma com que se relacionam. As vezes o relacionamento pode até acabar nesse momento.

- Então ta. Você troca!
- Como assim? Tem que ser sempre tudo do seu jeito né? Não agüento mais isso!

Ouvindo no avião




Estamos no avião que esta parado, não sabemos quanto tempo ainda de espera, as pessoas começam a ficar eufóricas. O indivíduo que esta na minha frente pega o celular, não restando mais muito o que fazer presto atenção em sua conversa.

- Alo o Sr. Marisco, continuando a nossa conversa, penso que a nossa empresa pode dar todo o referencial e suporte que o Sr. Precisa.

Desanimo, business business business ... mas ele fala alto e o avião nem sinal de se mecher...

- Só precisamos resolver umas questões de CNPJ. Mas esta tudo certo, conversamos depois então. Abraço.

Logo na seqüência.

- Alô. Jorjão?!! Arrumei o cliente cara! Vamos encarar essa meu! Abrir logo essa empresa cara! Demoro.

Nossa que mudança de tom e postura, fiquei curiosa pra ver a cara dele.

- Então, só que como você sabe né? Acabei de sair de um casamento estou meio descapitalizado agora... Só posso entrar com 10 mil, e o cliente claro.

Hum se as pessoas soubessem antes do preju de um casamento...

- Ta beleza cara, fecho vamos nessa então, vou falar com o outro investidor.

Segundos depois.

- Alo Sr. Izantino? Bom dia, acabei de firmar o acordo com o Sr. Marisco, e vamos abrir a empresa, vamos entrar com 30 mil, se o Sr. tiver interesse...
- Sim com 70 mil, já temos um capital de giro interessante.
 
Esse cara é rápido, deve ser de capricórnio.
Uns dois, três minutos depois...

- alo, oi – Não, to no avião ainda, não decolou não.

Voz mais suave, com certeza ta falando com uma mulher.

- Viu, deu tudo certo vamos abrir sim a empresa. Só preciso arrumar mais cinco mil...Ta bom, te ligo quando chegar, beijos viu?

Hum agora desmontou a pose do empreendedor... aiai estes homens sempre precisam descansar a cabeça no peito de uma mulher.
Outra ligação.

- alo Márcia, oi querida, viu meu voou ta atrasado... poisé, vai ser corrido... faz o seguinte me encontra lá no hotel, almoçamos juntos lá, e economizamos tempo...
  
Ou de duas mulheres... 



    


Conversas de portão. Ou como comecei (ou não) a compreender a antropologia.



Hoje penso que consigo entender o que quis dizer uma professora quando em uma aula professou uma frase que causou certa indignação entre os alunos. Ela disse algo como, é a antropologia que me permite conversar com o pedreiro, com a empregada...

Entendi que o conversar neste sentido, se estende a um aspecto maior e muito mais intenso do que um comentário sobre o tempo, ou um capitulo da novela. Mas com o sentido antropológico de entendimento do outro, e este “sentido de entendimento” para mim, pressupõe acima de tudo sensibilidade e vontade de olhar as pessoas e suas vidas, de querer olhar sem esta viseira social que encobre e sobrepõem as relações humanas.

Muito mais do que pretender olhar sem julgamentos, e sem a pretensão de tentar compreende-los, mas deixar-se observar e chegar a alguma conclusão que no fim são e somos seres humanos com valores, sentimentos, esperanças, moralidades e realidades.

Esta forma de ver e se ver, é de fato um exercício constante não é simples nem natural, necessita séries de reflexões da vida e seus significados. Que fazem com que você primeiro, aos poucos vai descobrindo ter esta tal viseira a cobrir sua compreensão de vidas, e depois tentar move-la por mais que saiba que tira - lá totalmente ainda é uma tarefa distante. Possível será? Não posso e nem tenho como tentar responder isso a altura de meus 24 anos.

E é nesta reflexão que em mim foi iniciada pela antropologia, ou ao menos, me foi tocada pela forma como está tenta intermediar o relacionamento dos seres, que me deu a oportunidade de nesta vida tão individual e individualizada de prestar a atenção em pessoas além de meus vínculos de interesses.

Como as tantas vezes que, uma mulher, um homem ou uma família vem tocar a campainha de minha casa, me tirar de meu mundo, para me pedir algo, vender algo ou algo assim. Antes do costumeiro não obrigado ou não sinto muito, hoje me vem – mais do que antes - o questionamento e ainda a curiosidade, de quem seria esta pessoa. De onde vem, por quantas casas ela já passou despercebida, quantos nãos ela já recebeu que a fizeram desanimar e desenganar da vida. Ou não. O que a faz ter que tocar companhias desconhecidas e vomitar discursos hoje já decorados, já naturalizados e conformados de uma realidade doída.

E eu com minha vida de estudante sobrevivendo também de uma forma improvisada, mas de uma maneira tão diferente e distante daquela pessoa, tento naqueles minutos de contato entender o que se passa com aquele ser que me aborda, e saber o que eu como outro ser posso fazer naquele instante por ela.

Nesta disposição, me vem toda uma realidade que tento estudar e discutir em meia dúzia de palavras e em alguns segundos de olhar acabo conhecendo:

Uma família que chegou do Paraná só com a roupa do corpo, homem, mulher e 4 crianças, que na verdade tinham saído do nordeste tentando a vida onde lhe coubessem e agora estavam em Marilia a minha porta pedindo qualquer, qualquer coisa para quem não tem nada.

Um tiozinho bêbado e inchado pedindo um pouco de comida pronta por que a família cansou de lhe sustentar.

Crianças que querem somente bolacha e se você dá, elas vêm todo dia pedindo mais.

Uma senhorinha japonesa que vem com seu carrinho vender salsinha, almeirão ou alguma coisa que colheu de sua própria horta que cuida com bastante zelo.

Uma mulher doida que pede um sabonete, um dinheiro e se você lhe da um pouco mais de atenção, ela logo se desinibe e lhe pede uma dose de qualquer coisa.

Um senhor que vende pão e gosta de ficar horas falando como seus clientes adoram o pão que sua mulher faz.

Entre tantas outras pessoas e histórias...

E eu que com minha verba tento administrar contas, aluguel, comida, xerox e cerveja, e com minha dispensa de macarrão, café e batata, tento reparar de uma maneira ínfima e impotente um pouco da desigualdade que tanto estudo e questiono.

Observo-os então ir a porta do vizinho com suas historias pesando lhes o ombro.

Não tenho como não me perguntar:

E aí ?!! por onde a antropologia saí?


(texto antigo, mas q ainda me faz sentido)


Quadro: Andreusa Ricci ( minha avó)

Ano novo

Lá pelas tantas ela vira e fala:
- Meu, tem uma coisa que eu quero te dar já faz um tempo.

E vasculha no meio de sua bolsa até encontrar um passe de metro meio amassado, ela olha para ele, sorri com o seu rosto meio vidrado da madrugada de ano novo e me entrega. Eu olho meio incrédula “será isso?” Estou na praia, meus pés estão cheio de areia e minha cabeça um pouco zonza, vendo sua empolgação ao me dar singular presente a abraço e guardo o passe na minha bolsinha. Olhando para os bêbados que se moviam pelas areias não tive como não pensar sobre o ano que viria. Que pressagio teria aquele presente naquela hora, seria mais um ano de tantos acontecimentos insólitos que não teriam explicações? Então volto os ouvidos pra o som do violão e da cantoria empolgada e desafinada.

Dias depois estou na rodoviária, espero o ônibus que me levará de volta a rotina, tudo esta normal e tranqüilo, só o corpo um pouco cansado, tão diferente dos outros anos em que nem pensaria estar voltando pra casa tão cedo, e na verdade, nunca me lembro das minhas voltas. Espero o ônibus, de pé na plataforma com um livro que peguei emprestado, o livro traz alguns contos de ciganos é sempre alguma historia de como um cigano com sua esperteza soube aproveitar as oportunidades do destino e se dar bem de alguma maneira. Uso a minha passagem para marcar as páginas. Algumas pessoas esperam impacientes os ônibus, outras parecem estar com o pensamento longe talvez projetando sua chegada ao destino. O ônibus chega, eu apenas observo, espero o tumulto inicial se acalmar e entro na pequena fila que resta, sinto alguém roçando em minha mochila não presto muita atenção mas uma hora resolvo virar e vejo uma pequena velhinha, ela esta toda de azul com um pacote de salgadinhos na mão, eu sorrio pra ela de forma cúmplice, eu gosto de velhinhos, ela retribui o sorriso mostrando sua boca desdentada e suas gengivas inflamadas. Entro no ônibus.

O ônibus estava prestes a sair, quando o motorista entra com um objeto cor de rosa nas mãos perguntando quem perdeu. Era a minha carteira. Foi uma velhinha que encontrou - ele disse. Agradeço, achando estranho porque eu usei a carteira apenas pra comprar a passagem, depois não peguei mais nela, e o guichê da rodoviária era do outro lado, não tinha como eu ter perdido ela ali perto do ônibus... abro a carteira não tem mais nada alem dos meus documentos. Puta! A velinha me roubou??
Antes de pensar: Como vou voltar pra casa??! Lembro do inusitado presente na noite do ano novo.

È, esse promete ser mais um ano sem muitas explicações.


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(esse fato foi q deu origem ao conto q deu a idéia do blog...)

CORPOS






A porta fora batida com força, junto do estrondo que adentrava o ambiente uma explosão de emoção que nem se sabia o que era. Como sentir algo que fora inventado? Como questionar algo que não existe?


Batidas na porta. Uma entrada displicente de quem não espera a resposta.
Braços são puxados, tocados, algumas palavras são ditas repetidas e corpos são amolecidos.
Nada era acreditado, não havia como acreditar nem quem ouvia nem quem dizia. Somente a cama acostumada àqueles suores entendia que por ser mais fácil, a razão era vencida.
Como re-escrever estes acontecimentos sempre escritos, e como banalizar estes constantes acontecidos?
E o casal bíblico que nada sabiam que tudo queriam... Sem passados emparaísados na realidade que lhes fora dada. Eram os únicos e estavam lá. Enfim entenderam a genesia e... geraram os corpos.

Corpos que procuram corpos, corpos que se buscam e se unem, se unem e se dividem, se multiplicam se separam, se multiplicam de novo, se separam antes de se multiplicar, se impedem de se multiplicar, se separam pois se multiplicaram, corpos sempre corpos...Seres que se perpetuam em duplas como seres unos, como coisas corpos em necessidades.

Aah! Estes que agora mais do que nunca cultuados, cultivados, explorados regados às necessidades corpóreas, necessidades para conseguir mais contatos com outros corpos, com status, com barrigas, com dinheiros, com bundas brancas queimadas peludas celulitadas.




As palavras são acreditadas, os movimentos são esperados, ensaiados, e o suor da tarefa realizada vem como suspiro do esforço e satisfação, mas a avidez e gana de consumir ocorrem muitas vezes antes deste suspiro. E ai, mais uma vez está perdido o sentido do suspiro.

foto: 1- Francesca Woodman
2- ??
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